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IMPRIMINDO UM MUNDO MELHOR

02.07.2007 15:21

Ei, leitor. Isso, você mesmo. Por acaso já imaginou todo o trabalho que existe por trás deste Boletim Cedac em Ação que você está agora segurando em suas mãos? Todo o cuidado com a impressão, papel, testes para aprovação do material, ajustes de cores, corte, dobragem, grampeamento etc? Na correria do dia-a-dia esquecemos de refletir sobre o valor humano intrínseco nos objetos e, muitas vezes, em nossos hábitos de consumo, não avaliamos a importância da força de trabalho que está por trás de cada material consumido. Estamos optando por um produto em que as relações de trabalho e humanas são adequadas, justas e éticas? A resposta é não, na maior parte dos casos.

Por isso, iniciativas que fujam da lógica de exploração neoliberal e capitalista precisam ser ressaltadas. Nesse sentido, o trabalho realizado pela gráfica GRA VIDA ganha força e merece destaque. Para compreender melhor a história da GRA VIDA é preciso recorrer a um dos principais fundadores, José Ítalo Barbosa, de 50 anos.

Ítalo, como é conhecido, é torneiro mecânico e atuava como instrutor no Centro de Aprendizagem Técnica e Social (CADTS), localizado em São João do Meriti, Rio de Janeiro. No CADTS, além do curso de mecânica, são oferecidos outros de formação profissional como: usinagem industrial, eletricista, eletrônica, informática, pneumática etc. Para dinamizar e divulgar todo este trabalho, em torno de 1995, Ítalo e outros companheiros começaram a cogitar a possibilidade de criar uma gráfica para imprimir apostilas, cartilhas de formação, folders, cartazes, jornais etc. Porém, para isso, era preciso maquinário especializado e o grupo ficou apenas na vontade. Mas não por muito tempo.

Em março de 2003, o CADTS recebe uma doação de máquinas gráficas da Ação Social Paulo VI (ASPAS) e Ítalo é convidado para coordenar os trabalhos. Assim nasce a GRA VIDA, um empreendimento associativo de serviços de artes gráficas vinculada a Associação de Produtores Autônomos da Cidade e do Campo (APAC). A APAC é um espaço que agrupa trabalhadores do mercado formal e informal: mecânicos de automóveis, serralheiros, costureiras, e trabalhadores que fazem serigrafia (silkscreen).

Para agilizar seu processo de formalização a GRA VIDA foi fundada como microempresa, e não cooperativa. Ítalo explica que, apesar de sua vontade, na época, não foi possível fundar a GRA VIDA como cooperativa nem associação por motivos de legislação e outras questões burocráticas que até hoje são um entrave. Ele, entretanto, faz uma ressalva. “Pelo fato da GRA VIDA ser formalmente uma microempresa, não quer dizer que ela seja do sistema capitalista. É uma gráfica autogestionária, na qual todos participam e dão o direcionamento a ela. As decisões são horizontais”.

No início das atividades, as principais dificuldades da GRA VIDA, segundo Ítalo, foram a composição do grupo e a questão das vendas. “Sem duvida, ganhar a confiança daqueles que necessitam de serviços gráficos e fazer com que a GRA VIDA seja reconhecida pela sua qualidade, pontualidade na entrega, preços bons e transparência nas negociações foi, e sempre é, um grande desafio”, revela Ítalo.

GRA VIDA teria aí algum jogo de palavras? Segundo Ítalo, sim. GRA VIDA, diz ele, é uma gráfica voltada para a vida. “Nós temos critérios, não produzimos qualquer coisa. Analisamos criteriosamente. Para quem estamos produzindo, o que está sendo produzindo e com qual finalidade. Temos que ter um norte e uma meta em nosso trabalho. Não produzimos qualquer coisa que chega na gráfica. Agiotagem, dinheiro rápido, isso aí a gente não quer produzir. Queremos fazer alguma coisa que de fato vá transformar e que ajude de alguma forma a sociedade. Visando a melhoria da sociedade através da leitura”, orgulha-se Ítalo. Para ele, transparência é o ponto forte da GRA VIDA. “Às vezes, as pessoas têm uma demanda superior a nossa capacidade de produção e nós indicamos uma outra gráfica ligada aos movimentos sociais”, diz.

Quem acessar a página eletrônica da GRA VIDA (www.gravidagrafica.com.br), lá encontrará: “GRA VIDA gráfica e editora. Uma iniciativa de Economia Popular e Solidária”. E não é só no nome. Ítalo tem consciência da importância da Ecosol. Tanto é que a GRA VIDA participa, por exemplo, do Fórum Municipal de Economia Solidária de São João de Meriti. Além desta articulação com a Ecosol, A GRA VIDA se articula com o Fórum de Cooperativismo Popular do Rio de Janeiro (FCP - RJ). Ítalo diz ter percebido que fora dos movimentos sociais, a GRA VIDA não sobreviveria.

A questão do cooperativismo, porém, não foi largada de lado. Os planos futuros são fazer da GRA VIDA uma cooperativa de serviços que reúna trabalhadores de diversas especialidades (gráficos, eletricistas, metalúrgicos, ferreiros, costureiras etc.) Planos que certamente se efetivarão no que depender do conjunto de ONGs parceiras, tanto as que se encontram historicamente mais próximas, como CADTS e a APAC, a CAPINA (Cooperação e Apoio a Projetos de Inspiração Alternativa), quanto àquelas que se aproximaram mais recentemente, como o CEDAC. Uma aproximação que se traduz em muito mais do que uma relação profissional, mas como parte do processo de construção daqueles que acreditam e inclusive já estão imprimindo um mundo melhor.

 


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